A lenda da escada

 

 

Os índios que povoavam a região leste de Mogi das Cruzes onde mais tarde estabeleceu-se o município de Guararema praticavam solene ritual para o enterro de seus mortos. E, seguindo a velha lenda aprendida de seus antepassados, erigiam grande escada ao pé da cova â?" para que os falecidos pudessem alcançar o céu. 

Quando os frades do Carmo dispuseram-se a pacificar e a catequizar os índios da região, aproveitaram inteligentemente o antigo costume. Apresentavam aos silvícolas uma imagem de Nossa Senhora com uma escada nas mãos. Os bugres aceitaram perfeitamente os frades e a imagem. A pacificação não ofereceu maiores problemas e os religiosos fizeram construir no local uma grande igreja, tombada pelo Patrimônio e Artístico Nacional. 

O local conserva o nome de Freguesia da Escada.  

 

Lenda da Senhora da Escada                                         

 

APL 2862

Estava ainda bem vivo na minha memória o alvoroço que a todos tocou naquela noite de 13 de Agosto de 1959. Aos meus ouvidos soavam as sereias de alarme dos carros de bombeiros que corriam pelas ruas da cidade a caminho de S. Domingos: a igreja estava a arder! Só dias depois lá entrei. Nua, escura, triste, desolada. E o cheiro a fumo e a madeira queimada pairava ainda, dramaticamente, no ar que respirávamos.  

Saímos direitos à sacristia. E então alguém exclamou a meu lado: 

— Reparem! A imagem de Nossa Senhora da Escada está intacta! O fogo não lhe tocou! 

Era verdade. As chamas haviam respeitado até o vidro de protecção do pequeno nicho onde se encontrava a venerada imagem. Olhei-a num misto de veneração e surpresa. E nesse mesmo instante recordei a lenda que envolve tão milagrosa como singular Senhora, que o povo uma vez mais crismou segundo a sua devoção. 

 

Há muitos, muitos anos, ainda nos alvores da História portuguesa, existia ali, no Rossio de Lisboa, uma pequena ermida abobadada e com a altura de um primeiro andar. Quem a construiu? E porquê? É o que vou recordar. 

Quase desgrenhada de tanto correr, a rapariga estava ofegante, exausta. O seu traje falava de miséria, o seu rosto tinha estampada uma expressão de horror. Parou olhando o céu, e chamou, numa voz entrecortada pela dificuldade da respiração: 

— Minha Nossa Senhora! Por tudo vos peço que me salveis! Eu estou inocente! Nada roubei, pois apenas quis dar de comer à minha filhinha que morria de fome... Salvai-me, Virgem Santíssima! Salvai-me, e tereis em mim uma serva para toda a vida! 

Atrás dela soaram os passos dos seus perseguidores. Desesperada, ela achou forças para voltar a correr. Dobrou a esquina do Rossio e, de súbito, ouviu uma voz que vinha do Alto: 

— Vou salvar-te, minha filha, O teu pecado está já bem redimido pela tua dor. Quiseste apenas salvar a tua filha. Agora sou eu quem te salvará. 

A rapariga abriu os olhos num espanto e estacou. Olhava em todas as direcções. Abanava a cabeça, como se não acreditasse na realidade, e gritou quase: 

— Senhora! Senhora! Não sei se é milagre ou loucura, a voz que oiço! Mas se sois vós, ó minha Mãe do Céu, dizei-me como podereis salvar-me, se os meus perseguidores já estão a dobrar a esquina?... 

De novo a voz vinda do Alto fez-se ouvir: 

— Olha na tua frente. Que vês? 

— Uma escada... Mas aqui... havia apenas uma parede!... 

— Pois sobe por essa escada e segue essa estrelinha que brilha sobre ela. 

— Subir? 

— Sim. Mas depressa! Eles já estão a chegar! 

Cruzando as mãos sobre o peito, a rapariga começou a subir e em breve se perdia no espaço... 

 

Furioso, o chefe gritava: 

— Não pode ser! Ela não tinha asas nos pés! Procurem-na bem! Vejam na Corredoira. Ela tem de estar escondida em qualquer parte! 

Um dos homens encolheu os ombros e afirmou: 

— É impossível! A rapariga sumiu-se como o fumo! 

O que parecia mandar gritou, colérico: 

— Deixem-se de parvoíces! Procurem até encontrá-la! 

Mas a pesquisa foi baldada. Armaram um cerco que foram apertando. E nada! Faziam perguntas a quem topavam pelo caminho. Ninguém tinha visto a rapariga. De súbito, na Corredoira, alguém parecia ter algo para dizer. Correram quantos por ali se encontravam, fazendo perguntas. Mal refeita de espanto, uma velhota tartamudeou: 

— Eu via-a... Via-a com estes olhos que Deus me deu... 

— E onde? 

— Além... falando com o Céu... 

O chefe gritou: 

— Deixem a velha, que ela está doida! 

Mas a velha insistiu: 

— É verdade! Ela olhava e falava para o Céu. Parecia esperar uma resposta e depois falava outra vez. 

O chefe fechou os punhos, mais irritado. 

— Não percamos tempo com ela! Procurem melhor! 

A voz da velha voltou a ouvir-se: 

— É escusado! Eu vi como sucedeu aquilo... 

O homem franziu as sobrancelhas e perguntou: 

— Aquilo o quê? Fala, velha idiota. E de maneira que te perceba! 

A velha olhou o céu. Suspirou fundo e pareceu decidir-se: 

— Pois é verdade... Ainda me custa a acreditar! Calculem que a rapariga avançou para a parede da esquina e subiu por ela como se estivesse a subir uma escada... 

O homem interrompeu-a num berro: 

— Estás a brincar connosco ou endoideceste? 

Medrosa, tremendo, a velhota volveu: 

— Juro que digo a verdade, senhores! Ela subiu até desaparecer. Foi nesse momento que os senhores chegaram. 

O homem que parecia comandar os outros tentou acalmar-se. Fazia um visível esforço para se dominar. 

— Ora vamos falar como pessoas sensatas. Vossemecê diz que viu a rapariga subir pela parede como se fosse por uma escada e desaparecer? 

— Juro que vi! 

— E não acha isso estranho? 

A velhota arfava. Pôs as mãos. 

— Acho, sim, meu senhor! Creio que foi um milagre! O Céu atendeu-a! 

O homem calou-se. Olhou de sobrancelhas carregadas o sítio do muro por onde a velhota dizia ter visto a rapariga subir... 

E murmurou num eco: 

— Milagre! Foi um milagre! 

 

Alguns meses passaram. Certa manhã, um homem de armas passava na Corredoira. De repente parou. Junto ao muro para que sempre olhava quando ia por ali, estava uma jovem, muda e queda como uma estátua. O homem-aproximou-se. 

— Ouve cá. Tu conheces-me? 

A jovem estremeceu, como se despertasse de um sonho. Olhou-o de frente. Sorriu com bondade, e disse: 

— Conheço, sim, senhor. Foi naquele dia em que eu tirei aquele pão para a minha filhinha... Ela morria de fome... Mas a Virgem do Céu salvou-me... 

O homem perguntou: 

— Como fugiste? 

Com o ar mais inocente, a jovem respondeu: 

— Subi pela escada que a Senhora me pôs na frente. 

— E donde surgiu a escada? 

— Não sei. Vi-a ali, de repente. E a Senhora mandou-me subir. 

— Porque te ajudou Ela? 

— Porque eu lhe pedi. 

— Mas tu roubaste! 

— Ela sabia que precisávamos comer, e aquele a quem tirei o pão tem recebido muito do meu trabalho sem nada me dar. 

— Porquê? 

— Porque é mau e queria forçar-me pela fome a entregar-lhe o meu corpo. Fiquei muito cedo sem o pai da minha filha. Sou órfã de pai e mãe. Agora, já tenho trabalho... e estou a juntar para construir aqui uma ermida. 

— Tu? Mas isso custa muito dinheiro! 

— É verdade. Mas tenho tido muitas ajudas. 

— Queres também a minha? 

— Ficarei muito contente. E a Senhora também. 

— Como vais chamar à ermida? 

— Não sei. Ainda não pensei nisso. 

— Pois chamar-lhe-ás Ermida de Nossa Senhora da Escada!

 

O povo é escravo da sua palavra quando ela é ditada pelo coração. Mais depressa do que poderiam supor, a ermida de Nossa Senhora da Escada foi erguida. E para a sua breve construção muito contribuiu o relato do milagre, mil vezes repetido por uma simpática velhinha, que rematava sempre assim os seus discursos: 

— Acreditem que foi um milagre! Eu vi com estes olhos que a terra há-de comer. Eu vi a rapariga subir pela parede como se fosse uma escada! O Céu ouviu-a porque ela o merecia, apesar das tristes aparências! 

E desde o dia em que a ermida se levantou, o povo não mais deixou de acorrer a pedir os seus favores à Senhora da Escada. 

 

Fonte: MARQUES, Gentil, Lendas de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 53-56

 

LocalSé, LISBOA, LISBOA     

http://www.lendarium.org/narrative/lenda-da-senhora-da-escada/?tag=19

 

Os Dominicanos em Lisboa
 

O Convento de São Domingos de Lisboa foi fundado em 1242 por D. Sancho II, Rei de Portugal e continuado pelo seu irmão, o futuro rei D. Afonso III. Tinha uma cerca desafogada mas pela sua situação sofria grandes inundações quando a chuva era muita e descia pelas colinas abaixo. De tal modo foram grandes os prejuízos da inundação de 16 de Setembro de 1488 que o rei D. Manuel se propôs a corrigir os estragos e a construir novos dormitórios. No entanto, os estragos continuaram, sendo os maiores os do tremor de terra de 1531 que abriu as paredes até aos alicerces.

A igreja do convento era um centro de devoções e procissões populares muito queridas pelos lisboetas. Junto ao convento existia uma ermida chamada "Nossa Senhora da Escada", pois a ela se subia por uma escada. Era também de grade devoção dos reis e príncipes da dinastia de Avis. Dentro da própria igreja, existiam várias irmandades, cada uma com a sua capela, tais como a do Santíssimo Nome de Jesus (devoção concedida aos Dominicanos pelo Papa Gregório X em 1274), a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (aprovada em 1479), a dos Santos Reis Magos, a de São Jorge dos Ingleses, a de Santa Cruz e Santo André de Borgonha, a da Casa da Suplicação ("Tribunal Supremo da Justiça deste Reino"), a de Santa Catarina de Sena e, finalmente a de São Pedro Mártir, irmandade dos oficiais e membros do Tribunal da Inquisição. Da igreja saía, portanto, várias procissões, sendo a mais importante a do Corpo de Deus.

 

O Poço do Sino

 




          Um Homem bastante rico, residente em Recife, era vítima de uma doença incurável.  Com medo de morrer, fez uma promessa à Nossa Senhora da Escada: se ficasse bom, daria um sino de ouro à igreja.  Pouco tempo depois, ele recuperou totalmente a saúde e procurou pagar imediatamente a promessa.  Comprou um belíssimo sino de ouro e doou à Matriz, o qual foi instalado pelo Padre na torre do templo.       Aconteceu que, diante da suntuosidade do sino, uma mulher da vida achou que a beleza dele se contradizia com a simplicidade da Igreja.    Ao meio-dia, quando o sino tocou, ela blasfemou:
        "Mal empregado! Um sino tão bonito numa Igreja tão feia!"     No momento, o sino de ouro desprendeu-se da torre, saiu rolando morro abaixo e caiu num poço localizado no Rio Ipojuca, que passa por trás da Matriz. Na mesma ocasião, uma enorme serpente que por ali andava enrolou-se nele, passando a habitar no fundo do poço.
         Conta a lenda que, de sete em sete anos, o povo ouvia um barulho estranho dentro do poço, como se a água estivesse borbulhando. Com o transcurso do tempo o ruído desapareceu e, até os dias de hoje, o poço ficou conhecido como "O poço do Sino"


Livro: Lendas, Mitos e Histórias da Terra dos Barões

 
Autora: Mariinha Leão